segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Viagem...

Dizem que o pôr-do-sol às margens do Guaíba é uma das cenas mais belas do mundo. Também dizem que fumar maconha deixa mais viva a percepção das cores e que pode causar alucinações leves. Dizem ainda que Porto Alegre é a cidade do Brasil onde mais se fuma maconha. Não é de se estranhar, portanto, que Jaime tenha sentado junto com Pedro naquele MORRINHO não muito longe da Usina do Gasômetro pra tostar unzinho assistindo o sol sumindo no horizonte.
– Onde tu pegou esse? – perguntou Pedro, recebendo a OFERENDA.
– Na Conceição. Te liga que é uma paulada no MELÃO – alertou Jaime.
– Pegou quanto?
– Cinqüenta.
– Pila?
– Gramas. Cinqüenta gramas por cem pila.
– Pô, meio NOS DEDO.
– Pois é. Mas dá uns pega pra tu ver. Tu vai ficar muuuuuuito louco.
Nada de estranho até aqui.
O sol começa a mergulhar dentro do seu reflexo no rio e a fumaça começa a fazer efeito nos nossos heróis. Como de costume, diversas pessoas repetem o mesmo ritual. Noventa por cento desse risco é calculado: é fácil avistar qualquer aproximação da polícia, que ainda por cima não tem o costume de encrencar muito por causa da ERVA. O espetáculo prossegue sem maiores percalços. Uma história bastante banal, diriam alguns.
Eis que mais uma das exclusividades de Porto Alegre resolve se manifestar para mudar o rumo dessa prosa: a POLÍCIA MONTADA. Pedro avistou ao longe a dupla de BRIGADIANOS cavalgando morosamente, olhar fixo nos dois maconheiros sentados no MORRINHO. Cutucou Jaime:
– Ó, dispensa que deu merda.
– Dispensar o quê?
Não deu tempo de explicar.
Os cavalos já estavam à galope e os HOMENS DA LEI já haviam dado voz de prisão. No meio da confusão, todo o resto da MACONHEIRADA saiu correndo de perto, deixando os dois FUMETAS sozinhos com os policiais. Um deles desceu do cavalo e já foi botando Pedro no chão, revistando todos os seus bolsos. Nada. O outro puxou assunto com Jaime.
– Que que tavam fumando aí?
– Nada, nada…
– Que nada, rapaz? Tá pensando que eu sou palhaço?
– Não, não…
– Então tá mentindo por quê? Vamo lá, vamo lá, cadê a maconha?
– Não tem, a gente não tava fumando.
– Não te faz de bobo, rapaz. Vamo, mostra essa merda aí.
– A gente não tem nada…
– Olha no SACO! Esses filha da puta sempre metem no SACO pra ninguém pegar – falou o outro policial.
– Olha, rapaz, eu não vou mexer no teu SACO. Abaixa as cueca aí e tira fora essa merda antes que eu fique nervoso.
– Tá bom, tá bom…
Jaime enfiou a mão dentro das calças e puxou a PARANGA de fumo. Cinqüenta gramas, uma bela de uma pedra. Fumo prensado, uma lasca cheirosa enrolada em papel filme. O policial sorriu debochado:
– E a pontinha, cadê?
– Que pontinha?
– Porra, não começa de novo, guri. Passa a pontinha, passa.
Completamente chapado, Jaime levantou o pé que escondia o flagrante. O policial pegou a ponta, girou nos dedos, olhou de um lado, olhou de outro, e então mostrou ao colega, que se surpreendeu:
– Pô, bem fechado pra caralho, hein?
– Tu tem prática, hein? Senta ali com o teu amigo – disse o primeiro, apontando o mesmo MORRINHO onde estavam sentados no começo dessa AVENTURA. Jaime o atendeu. Os dois policiais se aproximaram e sentaram-se à sua frente. Pedro olhou para Jaime, que, após o elogio do policial, havia ficado totalmente DURINHO, como se tivesse CONGELADO no tempo. O policial olhou para a ponta, depois para o fumo, então sorriu e perguntou:
– Como é que tu enrola assim tão bem?
Jaime permaneceu imóvel. O policial continuou:
– Quer dizer, como é que tu enrola assim? Eu tento que tento e só sai uns PASTEL muito fudido. Não tenho a MANHA, é uma merda. Toda vez que eu vou botar um pra gurizada fumar, os caras ficam tirando uma com a minha cara porque eu só enrolo umas BALAS DE CÔCO. Diz pra mim, como é que tu faz? Qual é o segredo?
Jaime não acreditava no que o policial lhe pedia. Pedro, menos catatônico, resolveu se manifestar:
– Do que tu tá falando? Quer nos torturar? Já não chega ter nos pego com cinqüenta gramas de fumo?! Olha que eu vou chamar os DIREITOS HUMANOS!
– Não, não, gurizada: na boa. Eu não vou prender vocês. O lance é o seguinte: eu e o soldado GAMA passamos aqui todos os dias, mais ou menos nessa hora, logo depois que o sol se põe. A gente sabe que aqui sempre tem nego fumando e a gente vem aqui justamente pra isso, pra ver se alguém nos ensina como se enrola um baseado. Mas é só a gente chegar ali na curvinha pra alguém gritar que a gente tá chegando e sair todo mundo FUGANDO.
– Ah, pára!
– Tou te dizendo. E não é só a gente que faz isso: isso é comum entre TODOS os policiais. A verdade é que nós somos muito ruins fechando baseado.
– Tu tá louco, cara. Tá mais louco que nós.
– Não, não, numa boa. Aqui. Olha. Tá vendo aquele pessoal de CAMPANA ali naquela viatura? Porque tu acha que eles não vieram aqui dar um ATRAQUE em vocês?
– Pois é, boa pergunta.
– É que ontem eles pegaram uns surfistinhas do Moinhos que já ensinaram como é que se enrola um beque, então eles não precisam de vocês.
Eis uma afirmação que fazia certo SENTIDO, pensou Pedro.
– Pô, peraí. Tá falando sério?
– Seríssimo. Agora tu vai nos ensinar ou quer passar a noite na DEPÊ?
Sem ter nada a perder, Pedro resolveu obedecer.
– Tá, me passa o fumo aí que eu te mostro, então.
– Vai lá.
– Assim, ó. Primeiro tu pega o tijolinho e tira uma lasquinha. Depois tu pega essa lasquinha e esfarela tudo bem esfareladinho entre os dedos. Tem que ficar bem esfarelado mesmo, não pode ficar esses caroços aqui senão não fecha nem queima direito. Isso chama ESMURRUGAR.
– AHHHHHHHHH!
– Aí tu pega a tua seda e põe esse farelinho dentro, ó. Daí tu rola pra cima, pra baixo e vai rolando até ficar bem apertadinho, saca? Pega aí, dá uma praticada.
– Hum… Pô, esfarelado assim fica fácil de enrolar mesmo.
– É o segredo.
– Tá, e agora?
– Agora tu dá uma lambida aqui ó, que é onde tem a GOMA. Lambe e termina de rolar. Uma das pontas tu segura firme com os dedos e GIRA, pra fechar. A outra, tu deixa aberta. Aí tu vira ele com a ponta fechada pra baixo, pega um palitinho ou qualquer outra coisa e enfia assim, ó, pra PILAR o fumo. Vai, tenta tu.
– Peraí… deixa eu ver… Pô, olha só, Gama, enrolei um tri bom agora.
– Deixa ver. Ih, enrolou mesmo, hein? Que massa.
– Bom, guri, acho que era isso. Tó o teu fumo e te arranca daqui.
– Valeu, seu guarda.
– Eu que agradeço. E vê se não esquece da pontinha. Até.
– Até.
Os brigadianos montam nos cavalos e começam a ir embora. Durante todo o tempo, Jaime permaneceu sentado, de boca aberta, ainda sem acreditar muito no que tinha visto. Pedro resolveu dar-lhe um SACODE.
– Ô Jaime. Acorda, rapá!
– Cara… aconteceu mesmo isso? Tipo… os porcos nos pararam pra perguntar como é que se ENROLA um back e tu ensinou?
_Ensinei Véio...
– É…ou esse teu fumo, é mesmo uma paulada no Globo em!!
– Pódi crê.
_Tive a mesma viagem.

Um comentário:

Unknown disse...

Oh, Ronaldo, essa é uma viagem, mesmo, de onde vc tirou essa história ???
Seja de onde for é engraçada
Quem já não passou, por uma aventura na brisa ???